“A Escola Polonesa de Cartaz” A “Escola Polonesa de Cartaz” surgiu na Polônia depois da II Guerra Mundial, em pleno regime comunista que tentava impor sua ideologia em todos os aspectos de vida; a arte também se encontrava subjugada à ideologia dominante, ou seja, não se admitiam produções individualistas ou estilos e movimentos vindos da Europa ocidental como o Expressionismo ou Surrealismo, considerados pelos comunistas como a “arte decadente”. Este novo estilo chamado de “realismo socialista” deveria defender de forma simples e de fácil compreensão as conquistas do “melhor sistema político”. Como tudo começou: Estamos no final do século XIX e desde as três partilhas da Polônia (1772, 1793 e 1795) que condenaram o país a desaparecer do mapa e dividiram seu território entre Rússia, Prússia e Áustria, passaram-se quase 100 anos, durante os quais os poloneses ressentindo-se desta situação, rebelaram-se em diversas ocasiões contra as potências que partilharam o país. Enquanto Varsóvia, então sob o domínio russo, foi o maior centro comercial, econômico e industrial deste país não-existente, Cracóvia, sob domínio menos opressivo da Áustria e com certa autonomia, logo se estabeleceu como um berço para a vida artístico-cultural, científica, política e religiosa Era chamada também de Cidade Livre de Cracóvia e tornou-se o centro da vida cultural polaca povoada por escritores, poetas e artistas, alguns inclusive que tinham viajado à Europa e haviam entrado em contato com tendências modernistas da época. O cartaz tinha acabado de nascer na França com Jules Chéret que foi pintor e litógrafo e o pioneiro, em 1860, na criação de cartazes publicitários artísticos Os primeiros cartazes apareceram a partir de 1890 através dos incríveis Jozef Mehoffer, Stanislaw Wyspianski, Karol Frycz, Kazimierz Sichulski e Wojciech Weiss, que pertenciam ao movimento Jovem Polônia (Młoda Polska), período modernista polonês que abrangeu as artes visuais, literatura e música, que durou até o início da Primeira Guerra, e foi o resultado de uma forte estética que fazia oposição às idéias do positivismo. Eles tornaram-se tão populares, pois tinham o poder de mídia para agir como uma espécie de espelho que refletia a vida da sociedade, que levaram à primeira Exposição Internacional do Cartaz em Cracóvia, em 1898. Por volta de 1912, os artistas poloneses compartilharam experiências mútuas e foram influenciados pelos mestres da Art Nouveau, os franceses Henri de Toulouse-Lautrec, Eugène Samuel Grasset, o tcheco Alfons Maria Mucha e diversos pioneiros suíços radicados em Paris. Tiveram influencia também através das xilogravuras japonesas. Os gráficos poloneses, ligados à Academia de Belas Artes, escolheram o cartaz como novo meio de expressão e o transformaram em forma de arte. Na origem deste movimento estavam estes notáveis artistas que recolhiam temas do que estava acontecendo ao seu redor, assim como de estilos modernistas como o cubismo, construtivismo e o expressionismo que foram misturados aos elementos tradicionais do simbolismo e do folclore nacional. O que diferenciava o conjunto de cartazes poloneses dos europeus era a ênfase colocada na alta qualidade artística do projeto, característica que vai continuar durante todo o século 20. Carregados de estilo, metáforas e estética criativa, o cartaz polonês estabelece um vínculo de resgates da informação visual que, por meio de substituições compositivas narraram a vida da nação, social, política e cultural por mais de um século. Entre Guerras: Este período que se estende do fim da primeira guerra mundial em 1918, até o início da segunda guerra em 1939, foi marcado pela Grande Depressão, associada a graves tensões políticas. Em 1918, como resultado dos estragos da Primeira Guerra Mundial, os três ocupantes da Polônia - Rússia, Áustria e Alemanha, ficam também drasticamente enfraquecidos e a Polônia ganha a independência como Segunda República Polonesa estabelecida pela França e Grã-Bretanha no Congresso de Versalhes. Os 20 anos de independência, até o início da Segunda Guerra Mundial, foram um período de crescimento e prosperidade na Polônia. Começa o desenvolvimento rápido do comércio e indústria e em todos os setores, especialmente no turismo. Stefan Norblin, pintor realista, é convidado a criar uma série de cartazes para promover o turismo na Polônia. Seus cartazes, se destacam pois além das cores exuberantes eram caracterizados por formas reconhecíveis e silhueta que garantiam a leitura imediata do espectador. Antes da Segunda Guerra Mundial o cartaz polonês era tão rico graficamente quanto qualquer um produzido pelos líderes de cartazes da Europa - Inglaterra, França e Alemanha. No período entre guerras mundiais, o cartaz foi escolhido como mídia de propaganda pela necessidade de uma publicidade poderosa pois o mercado polonês ficou repentinamente saturado de diferentes produtos. Em 1926 na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Tecnologia de Varsóvia foi fundado o Estúdio de Desenho Gráfico, onde o trabalho dos artistas era caracterizado pela clareza e transparência dos projetos com precisão quase arquitetônica, por exemplo, “Radion” de Tadeusz Gronowski. Nesta época ele executa uma série de cartazes de publicidade que tornaram-se um marco no desenvolvimento desta área. Os cartazes entre as década de 1920 e 1930 diferem dos anteriores, mais elaborados, por utilizarem uma linguagem visual mais simples e direta de comunicação com o espectador. A Escola Polonesa de Cartaz: Imediatamente após a Guerra, cartazes mais sombrios apareceram encorajando a reconstrução de uma nação devastada e logo após a estética Stalinista foi injetada na maioria das artes populares. Os cartazes comissionados pelo governo exaltavam os ideais comunistas e divulgavam de forma simples e fácil serviços públicos e eventos - essa linguagem empregada nos cartazes é denominada 'realismo socialista'. Em 1946, sob o patrocínio deste regime, a distribuição de filmes estrangeiros era feita pelo Departamento de Cinema da Polônia. Os designers gráficos, entre eles Tomaszewski, foram convidados a produzir cartazes de propaganda e exigiram carta branca para recriar os conceitos dos cartazes originais e embora fossem submetidos à um comitê de censura, desenvolveram uma linguagem única mantendo seus estilos individuais de criatividade, conseguindo assim se desvencilhar das amarras da repressão. Eles aceitaram somente após estabelecerem que não teriam que fazer cartazes que parecessem cartazes de outros países. A escassez severa de recursos como tintas e pincéis na Polônia dificultou o trabalho, além da impressão e o papel serem inadequados. Essas limitações fizeram com que Tomaszewski repensasse as convenções dos cartazes de filmes, pois ele queria criar sua própria linguagem visual buscando a essência de cada filme e usando o mínimo de elementos. Ao invés de retratos glamorosos dos personagens, ele eliminou qualquer referencia a estrelas, substituindo-os por cores vibrantes e formas abstratas para alcançar o impacto gráfico. Em vez de ilustrar cenas do filme, sugeria no cartaz o clima do filme aplicando técnicas de filmagem como perspectivas dramáticas e recortes bizarros. Enquanto diretores de filmes criticaram essa abordagem como sendo muito fora da visão deles, ele surpreendentemente recebeu o apoio das autoridades comunistas responsáveis pela indústria cinematográfica. Tadeusz Trepkowski é outro representante do cartaz polonês pós-guerra e usava uma composição direta com cores chapadas para passar uma idéia e juntamente com Józef Mroszczak, Erik Lipiński e Henryk Tomaszewski ajudou a formar o que é conhecido como a Escola Polonesa do Cartaz. Estes artistas souberam usar os limites de liberdade de maneira inteligente e inventiva. Henryk Tomaszewski é considerado o pai dessa nova geração e em 1948 recebeu cinco primeiros prêmios por seu trabalho apresentado no Festival Internacional de Cinema e Exposição de Cartazes em Viena. Como professor na Academia de Belas Artes de Varsóvia, ensinou o jovem, acima de tudo aperfeiçoar competências de raciocínio, a capacidade de usar as áreas mais profundas do seu próprio intelecto e da imaginação. Esta geração inclue Maciej Urbaniec, Jan Młodożeniec, Franciszek Starowieyski, Waldemar Swierzy, Jan Lenica, entre outros. Eles adotaram diferentes formas de expressar genuinamente seu sentimento com relação ao assunto, dando ao cartaz vida própria. A nova geração de artistas, que tornaram o cartaz polonês famoso, usava uma linguagem metafórica que exigia uma participação ativa do leitor, seu estilo era extremamente expressivo e pessoal usando alto nível técnico e utilizando-se dos processos de litografia, impressão a relevo, offset e fotografia colorida. Contudo, em sua grande maioria, eram confeccionados a partir da técnica de pintura e da ilustração, cuidando também dos detalhes do desenho das letras, pois acreditavam que a expressão válida das idéias era feita pela mão no papel. Estes mestres influenciaram as gerações seguintes, além de diversos designers franceses, ingleses e norte-americanos que foram até a prestigiada escola para estudar. Com a morte de Stalin em 1953, a sua rígida regulamentação começou a se dissipar, deixando mais espaço para a expressão artística. As obras clássicas apareceram nos dez anos seguintes. Em contraste ao pesado realismo socialista o cartaz polonês desta época era de um colorido impactante e de um humor surreal e decididamente livre de qualquer simbolismo ideológico, sendo a única linguagem visual colorida permitida a ser vista nas ruas. Esse é um dos fascinantes paradoxos do cartaz polonês: uma arte que se desenvolveu a despeito e graças ao sistema de limites, pois trabalhar fora das restrições comerciais de uma economia capitalista permitia aos artistas uma expressão plena de seu potencial dedicando-se profundamente a esta arte. Além de o cartaz ser basicamente a única forma permitida de expressão artística individual e forma de arte contemporânea acessível da época, começou a ser usado na decoração de casas e escritórios dos poloneses. A ampla liberdade de criação dada aos artistas gráficos fez do cartaz uma ferramenta também de protesto. Ao mesmo tempo em que trabalhavam para o sistema, os artistas, munidos de sarcasmo e ironia, enganavam o regime criando obras com um nível de sutileza tão elevado que possibilitava a disseminação de mensagens oposicionistas. Em nenhum outro país observava-se uma identificação tão forte entre o artista e o público. O cartaz polonês tornou-se então a voz do povo - ousado, mas sério; tradicional, porém imprevisível. As autoridades polonesas da época, ao transformarem o cartaz em meio de informação e propaganda, acabaram por patrocinar a arte que, ironicamente, transformou-se no portador da crítica política e social que as mesmas autoridades desejavam suprimir. Entretanto, os artistas poloneses conheciam os limites para o protesto, e sabiam dosar a obediência e a revolta, assim podiam morder a mão que os alimentavam, mas não forte demais. Em conseqüência de todo esse processo criou-se o peculiar “estilo polonês” de cartaz, caracterizado por alguns críticos como o estilo da “independência e perspicácia da razão”. São denominadores comuns nas obras dos gráficos poloneses, a concisão, a ironia, a economia de formas e os desenhos inovadores das letras. Por fim, o maior mérito dos criadores de cartazes poloneses foi atenuar a linha que separa as artes comerciais das belas artes. O ano de 1956 é o período de maturação de uma nova consciência política da sociedade polonesa e traz a liberalização com uma nova geração que não teve a experiência direta da guerra, trazendo a esperança de alargar o âmbito das liberdades civis, da melhoria das condições materiais de vida e, sobretudo, de tornar-se independente da influência da União Soviética. Isso resultou, entre o trabalho dos artistas numa forte necessidade de procurar novas soluções e formas de expressão, favorecendo o aumento do nível de novas obras artísticas. Nesta época aconteciam as bienais do Cartaz realizadas na capital, Varsóvia, que atraíam multidões, surgiam galerias especializadas e um jornal popular de Varsóvia realizava competição entre os melhores cartazes do mês e do ano, escolhidos pelos leitores. Quando em 1968 foi criado em Varsóvia o Museu do Cartaz, como primeiro do gênero no mundo, sem dúvida, atingiu o auge de sua popularidade. A troca cultural com os países da cortina de ferro na época, influenciou muito o design dos cartazes cubanos e russos, tanto os cinematográficos como os publicitários. Década de 70 em diante: Outro grupo de artistas conhecidos como os gráficos da contracultura dos anos setenta, trabalhava numa linguagem a partir de fusão da qualidade pictórica de sua obra com elementos da arte pop, mas sempre salientando a observação aguda dos fenômenos sociais e políticos. O início dos anos 70 é marcado por greves e motins nas ruas e os críticos observaram atitudes anarquistas na abordagem às questões, mesmo nas mais “inocentes”, com uma nota muito amarga de contestação e descontentamento o que resultou na retirada de uma série delas. São desta épocas nomes como: Jan Jaromir Aleksiun, Jerzy Czerniawski, Stankiewicz, Jan Sawka, Wojciech Zamecnik, entre muitos. Os anos oitenta na Polônia foram um período de mudanças políticas e em dezembro de 1981, as autoridades introduziram a lei marcial que limitou drasticamente qualquer atividade para além do legalmente permitido. O cancelamento em 1982 da edição da Bienal Internacional de Cartazes criou uma ameaça real, um vazio intelectual e criativo. Mas os artistas continuaram sua produção, às vezes secretamente, e mais uma vez na história os cartazes se tornaram a arma mais perigosa de propaganda. Eis alguns nomes representativos desta época: Wiktor Sadowski, Wiesław Walkuski, Stasys Eidrigevicius, Mieczysław Górowski, Andrzej Pągowski. Nos anos seguintes a produção foi diminuindo discretamente e cessou no inicio de 1990 com a privatização da distribuição de filmes quando o regime capitalista foi implantado no país e os cartazes precisaram ganhar um perfil mais comercial. Atualidade: Hoje, está cada vez mais difícil ver nas ruas um bom cartaz publicitário, artisticamente interessante e eficaz. Atualmente as ruas das cidades da Polônia estão cheias de cartazes para incentivar a compra de todos os tipos de bens de produção nacional e global, mas nem todos são acompanhados do refinamento dos cartazes artísticos dos anos anteriores. Mesmo com o movimento enfraquecido, os cartazes são reconhecidos como parte importante da arte polonesa, sendo preservados por colecionadores, fãs, galerias e museus e ainda muitos artistas continuam elaborando e produzindo belas e criativas imagens, geralmente de filmes alternativos, que são impressos em pequenas tiragens e vendidos quase exclusivamente em galerias de arte com as características deixadas pela Escola Polonesa do Cartaz. O seu objetivo é a preservação do testamento de uma herança cultural ainda pouco conhecida fora da Polônia e uma imensa fonte de inspiração para jovens artistas. everlygiller@gmail.com Trabalho realizado para o curso de Letras–Polonês/UFPR/Projetos de Aprendizagem/2011/ mediador Professor Piotr Kilanowski. Bibliografia: http://www.tufs.ac.jp/ts/personal/sekiguchi/teksty/wyklad%20o%20polskim%20plakacie%20-%20linki/Polskie%20plakaty_Kurpik_pol.htm http://magazyn.culture.pl/pl/culture/artykuly/es_plakat_miedzywojenny http://www.smashingmagazine.com/2010/01/17/the-legacy-of-polish-poster-design/ http://www.designhistory.org/posters.html http://guity-novin.blogspot.com/ http://movie.uol.com.br/conteudo.php?id=2198 http://www.polishculture.org.uk/archive/news/article/a-history-of-polish-poster-art-31.html http://www.polishposter.com/html/posterart.html www.sinproepdf.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1546:exposicao-grafica-polonesa-em-cartaz&catid=82:agenda-cultural&Itemid=135 Você é o visitante número Contadores
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Piotr Kunce no MON
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